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Patativa e Lucarocas
PATATIVA DO ASSARÉ
O POETA DO SERTÃO
1. PATATIVA DO ASSARÉ: O POETA
"Eu sou fio do Assaré
Onde viveu meu avô
Lugá do meu nascimento
Que fica no interiô,
De junto do Cariri."
.............................................
Meu verso é como semente
Que nasce em cima do chão
Não tenho estude nem arte,
A minha rima faz parte
Das obras da criação.
...............................................
"Prá gente aqui ser poeta
é preciso fazer rima completa,
não precisa professor:
Basta ver o mês de maio,
um poema em cada gaio
e um verso em cada flor."
A exemplo da maioria dos cantadores e dos poetas de cordel, Patativa do Assaré começou fazendo simples trovas de gracejo que, embora fizessem sucesso, não apresentavam mensagens da realidade do sofrimento e do abandono do sertanejo.
Diz o poeta: "De treze aos quatorze anos comecei a fazer versinhos que serviam de graça para os serranos, pois o sentido de tais versos era o seguinte: brincadeiras de noite de São João, Testamento de Judas, ataques aos preguiçosos que deixam o mato estragar os plantios da roça, etc."
Mais tarde, Patativa do Assaré passou a escrever uma poesia de cunho social e fez dela sua marca. Em seus versos, ele denuncia o abandono e o sofrimento do nordestino, reclama do sistema da desigualdade política, econômica e social da região e da falta de interesse e comprometimento dos governantes.
Torna-se, assim, o intérprete dos seus irmãos sertanejos, e faz-se seu porta voz. .
Homem cristão, com seu código de valores fundamentado na tradição religiosa da Bíblia, adverte o nordestino que "não foi Deus que lhe deu um destino causador do padecer". E diz, sempre em versos, a razão da situação em que vive o sertanejo.
"Nunca diga, nordestino,
que Deus lhe deu um destino
causador do padecer.
Nunca diga que é o pecado
que lhe deixa fracassado,
sem condição de viver."
"Já sabemos muito bem de onde nasce ,
de onde vem a raiz do grande mal.
Vem da situação crítica,
desigualdade política,
econômica e social."
"Mas, não é o pai celeste
que faz sair do Nordeste
legiões de retirantes.
Os grandes martírios seus
não é permissão de Deus.
É culpa dos governantes. "'
2. PATATIVA DO ASSARÉ: BIOGRAFIA
Antônio Gonçalves da Silva (Patativa do Assaré) nasceu a 5 de março de 1909 na Serra de Santana, pequena propriedade rural do município de Assaré, Ceará. Em 1910 perde a vista direita em conseqüência da doença conhecida por "dor d'olhos". Órfão de pai aos 8 anos, passa a trabalhar, ao lado do irmão mais velho, para sustentar os mais novos. Aos doze anos, o garoto sinhazinho, como era chamado na família, freqüenta uma escola rural. Estuda apenas por 6 meses, mas procura ler sempre que seu trabalho permite.
Em 1922, começa a fazer versos. Diz ele: ,
"A poesia sempre foi e ainda está sendo a maior distração da minha vida. O meu fraco é fazer verso e recitar para os admiradores, porém nunca escrevo os meus versos. Eu os componho na roça, ao manejar a ferramenta agrícola e os guardo na memória, por mais extensos que sejam."
Aos 16' anos ganha uma viola da mãe, e diz:
"Cantava por esporte, a pedido dos amigos. Cantei com os mais famosos cantadores do Nordeste, mas não quis fazer profissão. Nunca deixei a agricultura."
Aos 20 anos, em 1929, já considerado um cantador e tocador de viola autêntico, Antônio Gonçalves da Silva vai ao Pará. Em Belém, conhece o folclorista cearense José Carvalho de Brito, que lhe deu o nome artístico de Patativa do Assaré, justificando que a espontaneidade de sua poesia tinha semelhança com o canto sonoro da Patativa. A partir daí, passou a ser conhecido por Patativa do Assaré.
Em 1930 retorna à Serra de Santana, recomeça sua vida de roceiro, porém sempre fazendo versos.
Somente a partir de 1955 vem ao grande público nordestino a obra poética do poeta cearense, com a publicação do primeiro livro: Inspiração Nordestina.
O poema A Triste Partida, também musicado por Patativa do Assaré, na interpretação de Luiz Gonzaga, o sertanejo do Exu, alcança grande sucesso em 1962, e torna-se o hino do retirante nordestino.
Em 1978 é lançado nacionalmente o livro Cante lá que eu canto cá, e toda a imprensa brasileira o elogia, como um marco na história da cultura popular. Elogiado e admirado em todo o Brasil, Patativa do Assaré recebe inúmeras homenagens.
1981 - O cantor Raimundo Fagner produz o disco mais vendido de Patativa do Assaré, A Terra é Naturá
1982 - Recebe o título de Amigo da Cultura
1983 - Recebe o título de Cidadão Fortalezense, agradecendo a homenagem em versos.
1984 - Inaugurado em Assaré um Centro Popular, reunindo acervo sobre Patativa e suas obras.
03
1986 - Recebe a Medalha da Abolição, maior comenda do Ceará.
1989 - Em Assaré, o governador do Estado, Tasso Jereissati, assina decreto denominando Rodovia Patativa do Assaré a estrada que liga Assaré a Antonina do Norte.
- Recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Regional do Cariri em 1989.
1995 - Lançado o disco e CD: Patativa do Assaré, 85 anos de Poesia, com a presença do Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso e do Governador do Ceará, Tasso Jereìssatì, no Teatro José de Alencar, Fortaleza.
ALGUMAS OBRAS: Inspiração Nordestina ( 1955) Cante lá que eu canto cá ( 1978) Inspinho e Fulô ( 1988) Edição completa das Obras de Patativa em Cordel ( 1991 ) Aqui tem coisa ( 1994)
"Patativa do Assaré é aclamado, de modo unânime, como o grande nome da poesia dita popular de todos os tempos. Nele vida e obra se fundem."
(Gilmar de Carvalho, no prefácio do livro Aqui tem coisa.)
A poesia de Patativa é tão autêntica que o Pe. Antônio Vieira disse que se Patativa não fosse poeta seria cangaceiro.
Da mesma forma que Lampião defendeu seu povo com bacamarte, Patativa defende com sua poesia social, humana e sentimental: Ele é o mais autêntico intérprete de sertanejo, é a maior potencialidade para gritar contra as injustiças e discriminações sociais e econômicas do sertão.
Se o Brasil de Gonçalves tem Palmeiras onde canta o sabiá, o Brasil de Patativa tem mandacaru, onde a juriti chora ao entardecer, tem aroeira onde o João de Barro faz o seu ninho.
A poesia de Patativa é colhida da terra, dos roçados, como se estivesse apanhando feijão ou quebrando milho. Sua poesia é nascida da experiência vivencial, do contato com a terra onde nasceu, viveu, sofreu, trabalhou, tirando o seu sustento, terra onde vive feliz, no seu Assaré no
seu Ceará.
3- ANEDOTÁRIO DO PATATIVA
Certa vez Patativa marcou uma audiência com o prefeito de Assaré, porém toda vez que tentava falar com o prefeito, este nunca se encontrava na prefeitura. Patativa aborrecido com a situação escreveu o poema Prefeitura sem Prefeito:
Nesta vida transidura
Tudo pode acontecer
Muito breve há de se ver
Prefeito sem prefeitura,
Porém mesmo sem leitura
Sem nem um curso ter feito
Eu conheço do direito
E sem lição de ninguém
Descobri onde é que tem
Prefeitura sem prefeito:
Não vou teimar com quem diz
Que viu ferro dá azeite
Uma avestruz dando leite
E pedra criar raiz
Ema apanhar de perdiz
Um rio fora do leito
Um aleijão sem defeito
E morto declarar guerra
Porque vejo em minha terra
prefeitura sem prefeito.
Em virtude disso o prefeito mandou prendê-lo, Patativa não chegou a passar 15 minutos na cadeia. quando vinha saindo viu uma patativa engaiolada e fez o seguintes versos:
Patativa descontente
Nessa gaiola cativa
Embora bem diferente
Eu também sou Patativa
Triste a vizinha pequena
Temos o mesmo desgosto
Sofremos a mesma pena
Embora em sentido oposto
Teu sofrer e meu penar
Clamam à divina lei
Tu presas para cantar
E eu preso porque cantei.
Quando foi homenageado com a medalha da abolição, juntamente com o escultor Zé Pinto, Patativa agradeceu em nome dos dois:
Pinto é artista de verdade
Se eu tenho capacidade
Ele também é capaz
Cada qual no seu compasso
Ele não faz o que eu faço
Nem eu faço o que ele faz.
Na época da guerra, um amigo lhe cumprimenta, meio zombando:
- Patativa, você não vai pra guerra?
Improvisando Patativa responde:
Não me leve para a guerra
Não me Faça tal surpresa
Que não tenho natureza
De ver meu sangue na terra
Me leve pra quela serra
Pra eu viver nos buracos
Vivendo junto aos macacos
Morrendo de sede e fome
Depois escreva meu nome
No livro dos homens fracos.
Proseando com o poeta e amigo Dideus Sales, Patativa improvisou:
Poeta dos fariseus
Tu tens feitiço ou mandinga
Com essa história de Dideus
E doido bebendo pinga.
Contam que certa vez Patativa ao chegar numa cidade foi abordado por uma jovem com microfone em punho :
- Patativa me diga alguma coisa para gravar no gravador?
E o Patativa improvisou:
Gravador que está gravando
Aqui no nosso ambiente
Tu gravas a minha voz
0 meu verso e o meu repente
Mas gravador tu não gravas
A dor que o meu peito sente.
Tu gravas em tua fita
Com a maior perfeição
0 timbre da minha voz
E a minha Fraca expressão
Mas não gravas a dor grave
Gravada em meu coração.
Gravador tu és feliz
E ai de mm o que será
Bem podes ser desgravado
O que em tua fita está,
E a dor do meu coração
jamais se desgravará.
Patativa é o broto da poesia que rachou o torrão com o cair da gota de suor do trabalhador e germinou sob a luz do sol do sertão. Fortaleceu-se em planta e não vergou a haste, pois foi/ sempre regada pela inspiração divina. Suas flores são lumes de estrelas que brilham nos olhos esperançosos de cada camponês, os espinhos são garras que lutam contra a discriminação ao homem do campo, seus frutos são a própria divindade inspiradora que distribui a beleza e a vida para os que acreditam na sua arte de versejar.
Patativa é o próprio fruto poético de Deus.
Quem conhece Patativa
O poeta popular
Sabe que é lenda viva
Na memória secular,
Homem da agricultura
Que faz do verso cultura
E da vida poesia
E no cabo da enxada
Faz a bandeira hasteada
Clamar por democracia.
(...)
Patativa sertanejo
Dono da simplicidade
Colocou no seu versejo
A força da humildade
E contra a opressão
Defendeu o seu irmão
Em todo verso que fez
Mostrando-se defensor
Do homem trabalhador
E do povo camponês.
(...)
Foi no ventre do sertão
Que o poeta nasceu
Fazendo calo na mão
Com a enxada escreveu
No seco da terra dura
Um versejar de fartura
De grande sabedoria
Pois enquanto a terra arava
Sua mente transformava
Natureza em poesia
(...)
Esse poeta do povo
Um defensor do agreste
Quando faz um verso novo
Traz o canto do Nordeste
Que tem o cheiro da roça
A pobreza da palhoça
E a fome tão tirana
Mas sua voz é ativa
Qual cantar da patativa
Lá na terra de Santana.
(...)
(Lucarocas O Povo sem Patativa- Fortaleza - 1996)
(Texto extraído e adaptado pelo poeta Lucarocas para uso exclusivo em sala de aula do livro:
PATATIVA E 0 UNIVERSO FASCINANTE DO SERTÃO, de PLÁCIDO CIDADE NUVENS) |